Biblioteca Comentada: Sunguilando, de Óscar Ribas — a arte de contar a noite
Resenha comentada de Sunguilando – Contos Tradicionais Angolanos (1967), de Óscar Ribas: a recolha que celebra o sunguilar, o costume de passar a noite narrando histórias e adivinhas — uma escola oral de valores e sabedoria kimbundu.
Ficha bibliográfica
- Título: Sunguilando – Contos Tradicionais Angolanos
- Autor: Óscar Bento Ribas
- Primeira edição: 1967
- Gênero: Recolha de contos da tradição oral kimbundu
- Nível de dificuldade: Acessível (leitura para todas as idades)
Quem foi o autor
Óscar Ribas (Luanda, 1909 – Cascais, 2004), etnógrafo e escritor angolano, dedicado a preservar a tradição oral dos povos kimbundu. Sua vida está em Grandes Mestres: Óscar Ribas.
O que significa "sunguilando"
O título é a chave da obra. Sunguilar é um verbo do universo cultural angolano: significa passar a noite narrando — contando histórias, propondo adivinhas, cantando —, geralmente em roda, à luz da lua ou de uma fogueira. Sunguilando é o gerúndio: "estando a contar a noite".
Não é só entretenimento. O sunguilar é uma instituição de transmissão: é ali, na roda noturna, que os mais velhos passam aos mais novos os valores, os medos, a sabedoria e a memória do povo. Como registram os estudiosos da obra, não só as crianças participam do sunguilar — os adultos também, em rondas de narrativas e adivinhas.
O que Óscar Ribas fez com esse costume
Publicado em 1967 e dedicado às crianças de Angola, Sunguilando recolhe contos tradicionais dessa herança oral. Ao registrá-los, Ribas transformou um costume vivo — que corria o risco de se perder com a modernização e a urbanização — em patrimônio escrito, sem tirar dele a leveza e o encanto do formato original.
Por que isso importa para a tradição
Há algo profundamente afro-brasileiro nessa cena: a roda noturna de histórias como escola de sabedoria. É um parente direto das formas de transmissão oral que atravessaram o Atlântico e marcaram a cultura brasileira — dos contos aos provérbios, da roda à palavra dos mais velhos. Compreender o sunguilar angolano ajuda a enxergar a raiz de práticas de transmissão que a diáspora trouxe, tema que dialoga com a influência bantu na cultura brasileira e com o valor da oralidade que defendemos em por que estudar história fortalece a espiritualidade.
Os contos tradicionais, vale lembrar, vêm "carregados de mitos, valores, religiosidade e modos de vida" — não são histórias vazias, mas veículos de formação. Nesse sentido, Sunguilando é ao mesmo tempo o mais leve e um dos mais formativos dos livros de Óscar Ribas.
Para quem é indicado
Para todas as idades. É a obra mais acessível e afetuosa do autor — ideal para quem quer se aproximar da cultura kimbundu pela beleza dos contos, e também para pais e educadores interessados na tradição oral africana.
Perguntas Frequentes
O que quer dizer "sunguilando"? Vem de sunguilar: passar a noite contando histórias e adivinhas em roda, à luz da lua ou da fogueira — um costume angolano de transmissão oral.
É um livro só para crianças? Foi dedicado às crianças de Angola, mas o sunguilar envolve também os adultos. É leitura para todas as idades.
Contos tradicionais têm valor para o estudo da tradição? Sim. Eles carregam mitos, valores e religiosidade — são veículos de formação e memória, não apenas entretenimento.
Bibliografia e fontes
- RIBAS, Óscar. Sunguilando – Contos Tradicionais Angolanos (1967).
- Estudos acadêmicos sobre a "arte de sunguilar" na obra de Óscar Ribas; Britannica (verbete "Óscar Ribas").
Nota metodológica: os dados sobre a obra (ano de 1967, tema, o sentido do verbo "sunguilar") foram conferidos em fontes públicas e acadêmicas. A tradição oral angolana registrada por Ribas é uma raiz da cultura afro-brasileira, ligada a ela sem ser idêntica. Nenhuma prática ritual é ensinada aqui.
Veja também: Grandes Mestres: Óscar Ribas, resenha de Missosso e resenha de Uanga.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral