Grandes Mestres: Óscar Ribas, o guardião da tradição kimbundu de Angola
Série Grandes Mestres da Cultura Afro-Brasileira: Óscar Ribas (1909–2004), escritor e etnógrafo angolano que, mesmo cego, dedicou a vida a registrar a literatura oral, os ritos e a religião dos povos de língua kimbundu — uma das raízes bantu do Brasil.
Série "Grandes Mestres da Cultura Afro-Brasileira"
Até aqui, esta série visitou pesquisadores do Brasil, da Europa e da Nigéria iorubá. Falta uma raiz decisiva — e frequentemente esquecida — da formação afro-brasileira: a matriz bantu, e em especial o mundo kimbundu de Angola. Poucos autores a documentaram com a profundidade de Óscar Ribas. Dedicar-lhe um lugar de honra é reconhecer que o Brasil não se explica só pela África iorubá.
Quem foi Óscar Ribas
Óscar Bento Ribas nasceu em Luanda, em 17 de agosto de 1909, e morreu em Cascais, Portugal, em 19 de junho de 2004. Filho de pai português e mãe angolana, é considerado um dos fundadores da ficção literária angolana. Iniciou a atividade literária ainda no liceu e, ao longo da vida, tornou-se um investigador incansável das tradições, da língua e da cultura de seu país.
Há um detalhe que dá dimensão humana à sua obra: Óscar Ribas ficou cego por volta dos 35 anos — e, mesmo assim, não parou. Continuou pesquisando, ditando e publicando com o auxílio de familiares. Boa parte de sua monumental documentação da cultura kimbundu foi feita sem enxergar — pela escuta, pela memória e pela dedicação.
Seu trabalho foi reconhecido em vida com prêmios como o Prémio Margaret Wrong (1952), o Prémio de Etnografia do Instituto de Angola (1959) e o Prémio Monsenhor Alves da Cunha (1964).
Uma obra dedicada à tradição oral kimbundu
Óscar Ribas debruçou-se sobre a literatura oral, a filologia, a religião tradicional e a filosofia dos povos de língua kimbundu. Suas obras principais formam um verdadeiro arquivo dessa cultura:
- Ilundo – Espíritos e Ritos Angolanos (1958): estudo sobre os espíritos e os ritos da tradição angolana — a obra mais diretamente ligada ao universo religioso, que apresentamos na resenha comentada.
- Missosso – Literatura Tradicional Angolana (3 tomos, a partir de 1961): recolha da narrativa oral, dos contos e mitos angolanos — ver a resenha comentada.
- Sunguilando – Contos tradicionais (1967): outra coletânea da tradição oral kimbundu (o próprio título evoca o ato de contar histórias ao redor do fogo) — ver a resenha comentada.
- Uanga (1951): romance que mergulha no universo cultural angolano, incluindo a temática do feitiço — ver a resenha comentada.
Por que ele importa para o fundamento afro-brasileiro
A relevância de Óscar Ribas para quem estuda a religiosidade afro-brasileira é enorme e pouco explorada. Os povos de matriz bantu — entre eles os de língua kimbundu — tiveram peso imenso na formação do Brasil, como discutimos em a influência bantu na cultura brasileira e em mitologia bantu. Muito do vocabulário, dos ritos e da visão de mundo que chegaram ao Brasil vêm dessa raiz — inclusive a própria noção de pessoa que exploramos em o que é muntu/mutue.
Registrar a tradição kimbundu na fonte, em Angola, é oferecer uma chave para entender o que atravessou o Atlântico. Óscar Ribas documentou espíritos, ritos e narrativas de um mundo que, transformado pela diáspora, ajudou a formar as tradições afro-brasileiras — tema que se liga a origem do culto aos ancestrais. É por isso que ele merece um lugar de destaque num blog que leva a sério todas as raízes, e não só as mais faladas.
Uma nota metodológica, como em toda esta série: Óscar Ribas é fonte de registro etnográfico e literário da tradição angolana. Isso é diferente de afirmar equivalências diretas entre a religião kimbundu em Angola e as tradições afro-brasileiras — que são recriações da diáspora, não cópias. O valor de Ribas está em documentar a raiz; as pontes com o Brasil pedem cuidado e estudo, não atalhos.
Conclusão
Óscar Ribas dedicou a vida — e boa parte dela sem a visão — a salvar da perda a tradição oral, os ritos e a filosofia dos povos kimbundu de Angola. Para o estudo das religiões afro-brasileiras, sua obra é uma janela rara e preciosa sobre uma das raízes bantu do Brasil. Trazê-lo para o centro é um ato de justiça: o Brasil africano é também, e profundamente, angolano.
Bibliografia e fontes
- RIBAS, Óscar. Ilundo – Espíritos e Ritos Angolanos (1958).
- RIBAS, Óscar. Missosso – Literatura Tradicional Angolana (3 tomos, a partir de 1961).
- RIBAS, Óscar. Sunguilando – Contos tradicionais (1967).
- RIBAS, Óscar. Uanga (romance, 1951).
- Enciclopédia Wikipédia (verbete "Óscar Bento Ribas") e Infopédia (Porto Editora) — dados biográficos e bibliográficos.
Nota metodológica: os dados biográficos (nascimento em Luanda em 1909, morte em Cascais em 2004, cegueira, prêmios e obras) foram conferidos em fontes públicas. A obra de Óscar Ribas é registro etnográfico e literário da tradição kimbundu de Angola; este artigo não afirma equivalências diretas entre essa tradição e as religiões afro-brasileiras, que são recriações da diáspora.
Veja também: a influência bantu na cultura brasileira, mitologia bantu e a Biblioteca Comentada.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral