Biblioteca Comentada: Missosso, de Óscar Ribas — o arquivo da literatura oral angolana
Resenha comentada de Missosso – Literatura Tradicional Angolana (3 volumes, 1961), de Óscar Ribas: a grande recolha de contos, provérbios, adivinhas e crônicas orais dos povos kimbundu, e uma fonte preciosa da raiz bantu do Brasil.
Ficha bibliográfica
- Título: Missosso – Literatura Tradicional Angolana
- Autor: Óscar Bento Ribas
- Edição: 3 volumes (primeira edição a partir de 1961)
- Gênero: Recolha de literatura oral (etnografia da tradição kimbundu)
- Nível de dificuldade: Acessível a intermediário
Quem foi o autor
Óscar Ribas (Luanda, 1909 – Cascais, 2004) foi escritor e etnógrafo angolano, um dos fundadores da ficção literária de Angola e o maior recolhedor da tradição oral dos povos de língua kimbundu. Sua trajetória — e a cegueira que enfrentou sem parar de trabalhar — está em Grandes Mestres: Óscar Ribas.
O que é Missosso
Missosso é a obra em que Óscar Ribas reuniu, ao longo de três volumes, o vasto universo da literatura tradicional angolana. O título vem do kimbundu: misoso são os contos, as narrativas da tradição. Mas a obra vai muito além dos contos — ela organiza diferentes gêneros da palavra oral, cada um com seu nome próprio na língua:
- misoso — os contos, as histórias;
- maka — relatos tidos como verídicos, à maneira de casos e anedotas;
- malunda / misendu — narrativas históricas, crônicas do povo;
- jisabu — provérbios;
- miyimbu — poesia e cantos;
- jinongonongo — adivinhas.
Nessas histórias, como observam os estudiosos da obra, "homens, monstros, animais e almas dialogam sobre a vida" — deixando um acervo etnográfico de enorme riqueza informativa.
Por que isso importa para a tradição
Numa cultura de transmissão oral, registrar é preservar. Missosso é um dos maiores atos de preservação já feitos em relação à tradição kimbundu: fixou na escrita, com respeito e método, um patrimônio que só existia na memória e na voz dos mais velhos. É a mesma lógica que defendemos em por que estudar história fortalece a espiritualidade: a pesquisa como aliada da tradição oral, não como sua rival.
Para o Brasil, o valor é direto. A literatura oral não é "só" entretenimento: nela vivem a visão de mundo, os valores, a religiosidade e a filosofia de um povo. Compreender os contos, os provérbios e as crônicas kimbundu é compreender a matriz bantu que ajudou a formar o Brasil — tema de a influência bantu na cultura brasileira e de mitologia bantu. Muito do que se transmite oralmente nos terreiros brasileiros de raiz bantu tem parentesco com esse universo.
Uma ressalva honesta
Missosso é uma obra de literatura oral e etnografia, não um tratado religioso. Ela contém dimensão religiosa (mitos, almas, valores sagrados), mas seu foco é a palavra tradicional em todos os seus gêneros. E, como sempre lembramos, a tradição angolana registrada por Ribas é uma raiz do Brasil — não idêntica às tradições afro-brasileiras, que são recriações da diáspora.
Para quem é indicado
Para quem se interessa pela raiz bantu/kimbundu, pela literatura oral africana e pela visão de mundo transmitida nos contos e provérbios. É também uma leitura mais leve e narrativa que os estudos etnográficos densos — uma bela porta de entrada.
Perguntas Frequentes
Missosso é um livro religioso? Não exclusivamente. É uma recolha de literatura oral (contos, provérbios, adivinhas, crônicas), que carrega a religiosidade e os valores do povo, mas cujo foco é a palavra tradicional em geral.
O que significa a palavra "missosso"? Vem do kimbundu misoso: os contos, as narrativas da tradição oral. A obra reúne esse e outros gêneros da palavra falada.
Serve para entender a tradição afro-brasileira? Serve para entender uma de suas raízes — a matriz bantu de Angola. As tradições brasileiras são recriações da diáspora, ligadas a essa raiz sem serem cópias dela.
Bibliografia e fontes
- RIBAS, Óscar. Missosso – Literatura Tradicional Angolana (3 vols., a partir de 1961).
- Portal Literafro (UFMG); Britannica (verbete "Óscar Ribas"); estudos acadêmicos sobre a obra.
Nota metodológica: os dados sobre a obra (três volumes, gêneros da literatura oral kimbundu e seus nomes na língua) foram conferidos em fontes públicas e acadêmicas. Distingue-se a tradição angolana registrada por Ribas das tradições afro-brasileiras, que são recriações da diáspora. Nenhuma prática ritual é ensinada aqui.
Veja também: Grandes Mestres: Óscar Ribas, resenha de Ilundo e mitologia bantu.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral