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biblioteca·13 de julho de 2026

Biblioteca Comentada: Uanga (Feitiço), de Óscar Ribas — o romance que virou etnografia

Resenha comentada de Uanga (Feitiço), romance folclórico angolano de Óscar Ribas (1951): uma narrativa que, ao contar a vida de um casal, revela por dentro os costumes, crenças e a visão de mundo dos povos kimbundu.

Ficha bibliográfica

  • Título: Uanga (Feitiço) — Romance Folclórico Angolano
  • Autor: Óscar Bento Ribas
  • Primeira edição: 1951
  • Gênero: Romance de fundo etnográfico/folclórico
  • Nível de dificuldade: Acessível

Quem foi o autor

Óscar Ribas (Luanda, 1909 – Cascais, 2004), um dos fundadores da ficção literária angolana e grande investigador da tradição kimbundu. Veja sua trajetória em Grandes Mestres: Óscar Ribas.

O que é Uanga

Uanga — palavra kimbundu que se traduz por "feitiço" — é um romance, mas um romance muito particular: ao narrar uma história de vida (em torno do casamento de um homem e uma mulher angolanos), Óscar Ribas costura na ficção um verdadeiro inventário da cultura mbundu — fábulas, cantos, ditos populares, costumes, crenças. É, ao mesmo tempo, literatura e etnografia.

A obra ilustra a complexidade da vida africana tradicional, transitando entre a veneração e o medo — uma realidade em que o sagrado, a crença e a relação com as forças espirituais permeiam o cotidiano. Sua publicação, em 1951, é apontada como marco de uma nova direção africana e enraizada na escrita de Ribas.

Por que a ficção também guarda a tradição

Pode parecer estranho resenhar um romance num blog de fundamento. Mas há uma sabedoria aqui: às vezes a narrativa transmite a visão de mundo de um povo melhor que o tratado. Ao acompanhar personagens vivendo, casando, temendo e crendo, o leitor entra na lógica interna da cultura kimbundu — o modo como se entende o feitiço, a sorte, a relação com os espíritos e os ancestrais.

Esse cuidado dialoga com o que discutimos em ancestralidade e identidade: identidade e visão de mundo se transmitem também pela história contada. E ajuda a entender a raiz bantu que chegou ao Brasil, tema de a influência bantu na cultura brasileira.

Um cuidado necessário sobre a palavra "feitiço"

O subtítulo Feitiço pede atenção. "Feitiço" é uma palavra carregada de preconceito colonial — usada por séculos para demonizar as religiões africanas, como discutimos em mitos e verdades sobre Exu. No contexto da obra de Ribas, o termo nomeia um elemento da cultura tradicional angolana tal como ela se via e se vivia, não um juízo de condenação. Ler Uanga com esse cuidado é parte de estudá-lo com seriedade — reconhecendo o peso histórico da palavra sem reproduzir o preconceito que ela carregou.

Para quem é indicado

Para quem prefere entrar na cultura kimbundu pela narrativa e não pelo estudo técnico; para amantes de literatura africana; e para quem quer sentir "por dentro" a visão de mundo de um povo que é uma das raízes do Brasil.

Perguntas Frequentes

Uanga é um livro religioso ou um romance? É um romance — mas de fundo etnográfico, que revela costumes, crenças e a visão de mundo mbundu através da história de vida dos personagens.

O que significa "uanga"? É a palavra kimbundu para "feitiço". No contexto da obra, nomeia um elemento da cultura tradicional angolana, e não um juízo de condenação.

Preciso ler os estudos etnográficos de Ribas antes? Não. Uanga é uma porta de entrada mais leve. Depois, quem quiser aprofundar pode ir a Ilundo e Missosso.

Bibliografia e fontes

  • RIBAS, Óscar. Uanga (Feitiço) – Romance Folclórico Angolano (1951).
  • Britannica (verbete "Óscar Ribas"); estudos acadêmicos sobre o romance Uanga.

Nota metodológica: os dados sobre a obra (ano de 1951, gênero, tema) foram conferidos em fontes públicas e acadêmicas. O artigo contextualiza criticamente o termo "feitiço", reconhecendo seu peso colonial sem reproduzir o preconceito. A tradição angolana de Ribas é raiz das tradições afro-brasileiras, não idêntica a elas.

Veja também: Grandes Mestres: Óscar Ribas, resenha de Missosso e a influência bantu na cultura brasileira.

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