Filipe Vidal (2): os reinos que existiam antes dos portugueses
Filipe Vidal defende reconstruir a história de Angola a partir de antes da chegada dos portugueses. Os reinos do Kongo, Ndongo e Lunda mostram que havia organização política, urbana e diplomática muito antes da colonização.
Série sobre Filipe Vidal
Segundo artigo da série sobre o historiador e antropólogo angolano Filipe Vidal (veja a abertura da série para o contexto e as ressalvas metodológicas).
A tese: história não começa com a chegada do colonizador
Em entrevista ao jornal angolano O País, Vidal defende que "precisamos reconstruir a história de Angola desde antes da chegada dos portugueses" — uma frase que resume seu projeto intelectual. Para ele, tratar a história angolana como se começasse em 1483 (ano da chegada portuguesa à foz do rio Congo) é aceitar uma narrativa que apaga séculos de organização social, política e cultural própria.
O que já existia: Kongo, Ndongo e Lunda
Esse ponto não é só posição pessoal de Vidal — é história documentada. Antes da colonização, o território que hoje é Angola abrigava estruturas políticas complexas, algumas com caráter de reino:
- O Reino do Kongo, uma das formações políticas mais estudadas da África centro-ocidental, com capital em Mbanza Kongo, diplomacia própria e, após o contato português no século XV, correspondência direta com a coroa portuguesa e o Vaticano.
- O Reino do Ndongo, ao sul do Kongo, governado por um ngola — título que deu origem ao próprio nome "Angola" — e que resistiu por décadas ao avanço colonial, com a figura de Njinga Mbandi (Rainha Njinga) como sua expressão mais conhecida.
- O Reino da Lunda, mais a leste, com organização político-territorial própria que se estendeu por parte do que são hoje Angola, RD Congo e Zâmbia.
Esses reinos tinham centros urbanos, hierarquia política, comércio regional e de longa distância, e sistemas de sucessão — o oposto da imagem de "vazio histórico" que a narrativa colonial costumava sugerir.
Por que isso importa além da história
Vidal conecta esse resgate histórico a uma consequência prática: a política educacional. Para ele, currículos que ensinam a história africana como apêndice da história europeia mantêm, mesmo após a independência, uma dependência simbólica do olhar colonial. Reconstituir os reinos pré-coloniais é, nesse sentido, tanto um trabalho historiográfico quanto um projeto de autoestima nacional.
Ecos no Brasil
Esse mesmo movimento — devolver às formações políticas africanas sua complexidade, contra a imagem simplificada de "tribos" — é o que John Thornton fez academicamente para o Kongo e o Ndongo, e o que Óscar Ribas fez ao registrar etnografia angolana por dentro. É também parte do que discutimos em como nasceu a religiosidade afro-brasileira: a religiosidade que chegou ao Brasil escravizado veio de povos com Estado, língua, religião e história próprios — não de um vazio.
Conclusão
Ao insistir que a história de Angola não começa com o português, Filipe Vidal está fazendo um trabalho de restituição: mostrar que a complexidade política do Kongo, do Ndongo e da Lunda é parte do patrimônio angolano, e por extensão, parte da raiz mais funda da diáspora africana no Brasil. No próximo artigo da série, tratamos de um segundo tema caro a Vidal: o que significa "descolonizar a mente".
Fontes
- Jornal O País (Angola) — entrevista "Precisamos reconstruir a história de Angola desde antes da chegada dos portugueses".
- Historiografia geral sobre os reinos do Kongo, Ndongo e Lunda (consenso acadêmico amplamente documentado, independente da posição de Vidal).
Nota metodológica: a existência histórica dos reinos do Kongo, Ndongo e Lunda é fato documentado por historiografia consolidada (ver também Grandes Mestres: John Thornton) — não depende da leitura de Vidal. Já a interpretação sobre o que essa história "deveria" significar para a educação angolana é posição dele, apresentada como tal.
Veja também: Filipe Vidal: quem é, Grandes Mestres: John Thornton e como nasceu a religiosidade afro-brasileira.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral