Como nasceu a religiosidade afro-brasileira? A formação histórica das tradições
Candomblé, Umbanda e as demais tradições afro-brasileiras nasceram de um processo histórico de resistência, mistura e reinvenção. Entenda essa formação com base em Bastide, Ortiz e Nina Rodrigues.
Um processo, não um único evento
As religiões afro-brasileiras não nasceram de uma vez, num único momento — elas são resultado de um longo processo histórico, que combina resistência, mistura forçada e reinvenção, ao longo de mais de quatro séculos.
A base: diferentes povos africanos escravizados
Como já detalhamos em a influência bantu e a influência iorubá, o Brasil recebeu, ao longo do período colonial, diferentes povos africanos — bantu (chegados primeiro, a partir do século XVI) e iorubás/nagôs (chegados depois) — cada um trazendo sua própria cosmologia, línguas e práticas religiosas.
Resistência, não assimilação passiva
O sociólogo Roger Bastide, em As Religiões Africanas no Brasil, argumenta que entender essas religiões exige combinar etnografia e sociologia — levando a sério tanto a fala dos próprios praticantes quanto a análise histórica mais ampla. A pesquisa contemporânea reforça: a religiosidade dos africanos escravizados não foi simplesmente absorvida pelo cristianismo colonial. Ao contrário — através de estratégias diversas, o povo negro conservou crenças específicas, e após a abolição da escravatura, fundou espaços próprios de culto africano no Brasil: os primeiros terreiros.
A formação do Candomblé
O Candomblé se organizou nos portos da Bahia e do Rio de Janeiro, onde iorubás transmitiram seus saberes oralmente — cantigas, danças, rezas — organizando-se como um egbé (associação religiosa), ocupando um espaço físico determinado, o terreiro.
A formação da Umbanda
Já a Umbanda é um fenômeno mais recente, situado no início do século XX. O sociólogo Renato Ortiz, em A Morte Branca do Feiticeiro Negro, descreve a Umbanda como uma síntese tipicamente brasileira — combinando elementos afro-brasileiros (especialmente de raiz bantu), catolicismo popular, espiritismo kardecista e referências indígenas.
O peso da repressão histórica
Nenhuma dessas tradições se formou em ambiente de liberdade religiosa plena. Raimundo Nina Rodrigues, em Os Africanos no Brasil (escrito entre 1890–1905), foi um dos primeiros a registrar sistematicamente essas práticas — mas, como já explicamos em Macumba, Umbanda, Quimbanda e Candomblé, sua obra também carrega teorias raciais hoje rejeitadas pela ciência. Esse contexto de perseguição e estigmatização histórica (inclusive policial, em várias épocas do Brasil) faz parte inseparável da história de como essas religiões se formaram e resistiram.
Perguntas Frequentes
As religiões afro-brasileiras são "africanas" ou "brasileiras"? São as duas coisas ao mesmo tempo — nasceram de raízes africanas diversas, mas se formaram e se reinventaram especificamente no contexto histórico e social brasileiro, o que as torna genuinamente brasileiras também.
Todas as tradições afro-brasileiras têm a mesma origem? Não — Candomblé, Umbanda, Quimbanda e outras têm histórias de formação distintas, ainda que compartilhem raízes africanas comuns.
Por que o tema da perseguição histórica importa para entender essas religiões? Porque a forma como essas tradições se organizaram — muitas vezes de modo dissimulado ou resistente — é parte constitutiva de sua própria história, não um detalhe à parte.
Bibliografia
- BASTIDE, Roger. As Religiões Africanas no Brasil. São Paulo: Pioneira/EDUSP, 1971.
- ORTIZ, Renato. A Morte Branca do Feiticeiro Negro: Umbanda e Sociedade Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1991.
- RODRIGUES, Raimundo Nina. Os Africanos no Brasil. 1932.
Veja também: Macumba, Umbanda, Quimbanda e Candomblé — qual a diferença?.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral