Dos Povos aos Reinos de Exu e Pombagira: como a formação da Macumba no Rio de Janeiro está escrita na cosmologia
Antes de serem 'Reinos', Exu e Pombagira eram cultuados como 'povos'. Uma leitura histórico-teológica de como cada Reino — Kalunga Grande, Kalunga Pequena, Almas, Cruzeiro, Encruzilhadas, Lira, Makaia — guarda, em sua estrutura, a própria história da formação da macumba no Rio de Janeiro.
Uma cosmologia que também é memória histórica
Já explicamos, em como surgiram os Reinos de Exu e Pombagira, que os Reinos não têm uma "certidão de nascimento" documentada — são uma construção afro-brasileira, consolidada ao longo do século XX a partir de materiais cosmológicos africanos (a Kalunga bantu, o papel iorubá de Exu como senhor dos caminhos) e da paisagem simbólica brasileira.
Este artigo propõe ir um passo além: uma leitura histórico-teológica, desenvolvida por Igor Andrade (Mestre Igor de Tata Caveira) e aqui contextualizada e verificada historicamente, segundo a qual a própria estrutura dos Reinos pode ser lida como um registro simbólico da experiência concreta dos povos escravizados e marginalizados no Rio de Janeiro — a travessia do Atlântico, a morte em massa, os cemitérios, a rua, a mata, os caminhos da liberdade. É importante ser preciso sobre o estatuto desta leitura: não se trata de um fato documentado por arquivo histórico com essa correspondência exata Reino-a-Reino, mas de uma interpretação teológica coerente, apoiada em fatos históricos reais e verificáveis, que este artigo apresenta de forma explícita como tal — distinguindo, a cada passo, o que é história documentada do que é leitura de fundamento.
Antes dos Reinos: os "povos" de Exu e Pombagira
Segundo essa leitura, antes de se consolidarem como "Reinos" — territórios espirituais organizados e nomeados —, Exu e Pombagira eram cultuados de forma mais fluida, como "povos": agrupamentos de entidades ligadas por afinidade e função, ainda sem a arquitetura fixa que hoje reconhecemos. Essa transição de "povos" para "Reinos" acompanharia, nessa leitura, o próprio processo de sistematização que já descrevemos em firmeza, assentamento e n'kisi: da prática oral, descentralizada e fluida da macumba carioca original, para estruturas progressivamente mais organizadas — o mesmo movimento histórico que, na Umbanda e na Quimbanda, levou séculos de oralidade a se tornarem hierarquias documentadas em literatura de tradição.
Não localizamos, em fontes acadêmicas, um registro específico e datado dessa transição terminológica de "povos" para "Reinos" — por isso a apresentamos como parte da leitura teológica proposta, e não como fato de arquivo. O que é fato documentado, e que sustenta essa leitura, é o próprio berço histórico de onde tudo isso nasceu.
O berço: a formação da macumba no Rio de Janeiro
Como detalhamos em firmeza, assentamento e n'kisi, a macumba carioca — nome que a historiografia dá ao fenômeno religioso do Rio de Janeiro de fins do século XIX e início do XX — nasceu da fusão da Cabula (tradição de fundamento fortemente bantu) com outras influências presentes na então capital do país, num contexto de intensa migração pós-abolição. É nesse ambiente concreto — o Rio de Janeiro dos escravizados, dos libertos, dos fugitivos e dos marginalizados de toda origem — que a leitura proposta neste artigo ancora cada um dos Reinos.
Kalunga Grande: o retorno ao mar
Já vimos, na cosmologia bakongo estudada por Fu-Kiau, que a Kalunga é a fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo dos ancestrais, frequentemente associada ao mar (ver o conceito de Kalunga). Essa associação ganha, na travessia atlântica, um peso histórico literal e devastador.
Os números são documentados: dos cerca de 12,5 milhões de africanos embarcados nos porões dos navios negreiros, estima-se que 1,8 milhão morreram durante a travessia — uma média de 14 corpos lançados ao mar por dia, ao longo de mais de três séculos de tráfico. Os navios que faziam essa rota eram chamados, com brutal precisão, de "tumbeiros": tumbas flutuantes. Quando alguém adoecia ou morria a bordo, era comum que o corpo — às vezes ainda agonizante — fosse simplesmente lançado às águas.
Nessa leitura, o Reino da Kalunga Grande — o domínio do mar na tradição dos Reinos — guarda, em sua raiz, essa memória: os que foram devolvidos ao mar não desapareceram, mas retornaram à Kalunga, à fronteira ancestral de onde, segundo a cosmologia bakongo, tudo o que vive também retorna (ver o ciclo da vida e da morte). O mar que separou os povos africanos de sua terra é também, nessa leitura, o mar que os reconecta ao mundo espiritual de seus próprios ancestrais.
Kalunga Pequena: os cemitérios da cidade
Se a Kalunga Grande é o mar, a Kalunga Pequena — na organização de Reinos já apresentada em como surgiram os Reinos — é o cemitério: a fronteira dos mortos em terra. E aqui, também, a história do Rio de Janeiro oferece um fundamento concreto e documentado.
O Cemitério dos Pretos Novos, na região do Valongo, funcionou entre 1769 e 1830 como local de sepultamento de africanos recém-chegados que morriam pouco depois do desembarque na Baía de Guanabara — muitas vezes antes mesmo de serem vendidos. As escavações arqueológicas, iniciadas em 1996, revelaram sepultamentos precários, feitos rente ao chão, sem ritos fúnebres, com sinais de cremação parcial: estima-se que entre 20 e 30 mil pessoas escravizadas ali foram enterradas. Casos semelhantes de cemitérios clandestinos de africanos escravizados foram encontrados em outros pontos do Rio, como a praia de São Tomé, onde a erosão trouxe à tona ossadas até então esquecidas.
A institucionalização de cemitérios urbanos — e, ao lado dela, a existência de cemitérios clandestinos e precários como o dos Pretos Novos — é, portanto, fato histórico documentado. Na leitura teológica que este artigo apresenta, o Reino da Kalunga Pequena guarda essa dupla memória: o cemitério oficial e o cemitério negado, o rito formal e a vala comum — ambos parte da mesma fronteira entre vivos e mortos que a cidade do Rio de Janeiro construiu, muitas vezes às custas da dignidade dos corpos africanos.
Almas: os ancestrais que aqui ficaram
O Reino das Almas, na tradição dos Reinos, é o domínio dos mortos e das dívidas espirituais — já apontamos sua raiz no culto católico-popular às almas (ver como surgiram as Casas das Almas). Na leitura proposta aqui, esse Reino também guarda algo mais: a ideia de que os ancestrais africanos trazidos à força para o Brasil, e que aqui morreram — muitos sem nome, sem rito, sem retorno possível à terra natal —, passaram a residir espiritualmente em solo brasileiro. Não voltaram à África; tornaram-se ancestrais daqui, presentes na terra que os recebeu à força e que, por isso mesmo, se tornou também terra sua.
Uma nota de cuidado necessária: o termo "tupiniquim" é usado, popularmente, como sinônimo poético de "brasileiro" — mas é também o nome próprio de um povo indígena específico do litoral do que hoje é Espírito Santo e sul da Bahia. Ao falar em "Almas que residem em terras tupiniquins", esta leitura usa a expressão no sentido poético-popular consolidado na língua portuguesa (Brasil = terra tupiniquim), e não como afirmação de que os ancestrais africanos se fundiram especificamente com a ancestralidade do povo Tupiniquim histórico — o que seria uma afirmação distinta e não documentada.
Cruzeiro: a cruz que sempre foi Dikenga
Este é, talvez, o ponto em que a leitura teológica proposta encontra o respaldo acadêmico mais direto e surpreendente. O Reino do Cruzeiro — associado, na tradição, ao símbolo da cruz — carrega uma história de demonização: a cruz, dentro do imaginário popular preconceituoso, foi por vezes lida como sinal "macabro" ou "sinistro" quando presente em contextos de macumba e Quimbanda.
Mas a pesquisa acadêmica sobre a diáspora bakongo nas Américas conta outra história. O historiador da arte Robert Farris Thompson — já apresentado em Grandes Mestres: Thompson — sustentou, em estudos que se tornaram referência no campo, que o formato de cruz dentro de um círculo (o cosmograma bakongo, o Dikenga que já descrevemos em o cosmograma Dikenga explicado) aparece nas Américas de formas que não podem ser explicadas apenas pela influência cristã — fazendo mais sentido como uma forma cosmológica kongo herdada e codificada, que sobreviveu através de séculos de experiência no Novo Mundo. Pesquisas posteriores, como a de Grey Gundaker sobre o cosmograma kongo na arqueologia histórica, reforçam essa leitura.
Em outras palavras: quando os povos de matriz bakongo, trazidos ao Brasil, encontraram a cruz católica portuguesa, muitos deles já possuíam, havia séculos, seu próprio símbolo de cruz dentro de um círculo — o Dikenga, que representa exatamente a fronteira entre os mundos e o giro do tempo (ver os quatro momentos do sol). A cruz não foi, para esses povos, uma imposição estranha a ser apenas tolerada: foi, em boa medida, reconhecida como seu próprio símbolo, reapropriada e mantida viva sob a aparência de devoção católica. A leitura de que "o Cruzeiro sempre representou a Dikenga" não é, portanto, mera especulação de fundamento — encontra eco direto numa das teses mais influentes da história da arte afro-atlântica.
Encruzilhadas: o caminho de quem não tinha estrada própria
O Reino das Encruzilhadas é, na tradição, o domínio clássico de Exu: o cruzamento de caminhos, as escolhas, as direções — já explorado em o simbolismo das encruzilhadas. Na leitura histórica proposta aqui, a encruzilhada ganha ainda outro sentido: era, literalmente, o caminho dos escravizados e libertos pela cidade — os cruzamentos de ruas, becos e estradas por onde se deslocavam para o trabalho, para a fuga, para o encontro clandestino com outros cativos, para os poucos espaços de liberdade possíveis dentro de uma cidade que os vigiava. A encruzilhada urbana era, ao mesmo tempo, risco (o lugar da captura) e oportunidade (o lugar da fuga e do encontro) — exatamente a ambiguidade que a tradição atribui a Exu.
Lira: os povos da rua e da noite
O Reino da Lira, na tradição de Quimbanda, é descrito como o domínio da música, das artes, da boemia e da noite — associado a Exus e Pombagiras como os que hoje se conhecem por nomes sincréticos ligados à sedução e à festa. A literatura de terreiro descreve seu território simbólico como cabarés, casas de espetáculo, bares e lugares de jogo — habitados por artistas, prostitutas, jogadores e toda uma legião de figuras que circulavam à margem da respeitabilidade oficial.
Essa descrição tradicional confirma exatamente a leitura histórica proposta: o Reino da Lira é o retrato da mistura dos "povos da rua" — libertos sem ofício reconhecido, imigrantes pobres, artistas populares, mulheres que sobreviviam da noite, malandros — que se formou nas cidades brasileiras, e especialmente no Rio de Janeiro, à medida que a abolição lançava milhares de pessoas para uma liberdade sem terra, sem trabalho garantido e sem lugar social reconhecido. A Lira é o Reino de quem viveu — e vive — nas margens da cidade oficial.
Makaia: a mata como refúgio de todos os marginalizados
O Reino da Makaia (ou Reino da Mata) tem, como já apontamos em como surgiram os Reinos, raiz no vocabulário bantu, ligado à força bruta e viva da natureza. Na leitura histórica proposta, a Makaia representa algo muito concreto: a mata como refúgio.
É fato histórico bem documentado que os quilombos — comunidades formadas por africanos e afrodescendentes fugidos da escravidão — se estabeleciam predominantemente em áreas de mata fechada, de difícil acesso, onde a vigilância colonial não alcançava com facilidade. E é também documentado que essas comunidades de refúgio, embora majoritariamente formadas por negros fugitivos, por vezes reuniam alianças com povos indígenas (que já conheciam o território) e, em certos casos, com brancos pobres e marginalizados que também não encontravam lugar na ordem social vigente — desertores, fugitivos da justiça, os que a sociedade colonial também expulsava para as margens.
A Makaia, nessa leitura, é o Reino de todos os que a mata acolheu quando a cidade os expulsou: negros fugitivos, indígenas, caboclos, brancos marginalizados — uma aliança de sobrevivência nascida da mesma exclusão, ainda que vivida de formas muito diferentes por cada grupo.
Conclusão: uma cosmologia que se lembra
A leitura apresentada neste artigo não pretende ser a única possível, nem substituir a compreensão de nenhuma casa ou linhagem sobre seus próprios Reinos — como já dissemos, não existe um modelo único e "oficial" de Reinos. O que ela propõe é algo diferente: mostrar que a estrutura simbólica herdada e organizada ao longo do século XX pode ser lida, com respaldo em fatos históricos reais e documentados — a travessia atlântica, os cemitérios do Rio, a formação dos quilombos, a vida marginal das cidades —, como uma espécie de memória codificada. Os Reinos não seriam apenas categorias espirituais abstratas: seriam, também, o eco de uma experiência histórica concreta e dolorosa, transformada, pela força criativa dos povos que a viveram, em cosmologia viva.
Entender os Reinos dessa forma não diminui seu caráter religioso — ao contrário, aprofunda-o. Mostra que a fé que hoje chamamos de Makumba Ancestral, Quimbanda ou Umbanda não nasceu de abstrações teológicas distantes da vida real: nasceu do corpo, do mar, da terra e da rua onde a história efetivamente aconteceu.
Perguntas Frequentes
Essa correspondência entre cada Reino e cada fato histórico é comprovada por documentos de arquivo? Não como uma correspondência ponto a ponto documentada. É uma leitura teológica e histórica que este artigo desenvolve, apoiada em fatos históricos reais e verificáveis (a travessia atlântica, os cemitérios do Rio, a formação dos quilombos), mas a associação específica de cada fato a cada Reino é interpretação, não registro de arquivo.
Isso significa que os Reinos "surgiram" desses eventos históricos de forma consciente e documentada? Não temos como afirmar isso com certeza histórica. O que é possível afirmar é que a estrutura dos Reinos, tal como se consolidou ao longo do século XX, guarda ressonâncias simbólicas fortes com essa história — e que essa ressonância pode ser lida teologicamente, como este artigo faz.
A tese de Robert Farris Thompson sobre a cruz e o Dikenga é aceita por todos os pesquisadores? É uma das teses mais influentes sobre a sobrevivência cultural bakongo nas Américas, mas, como todo debate acadêmico, não é unânime nem isenta de discussão sobre seus limites — como já apontamos em o cosmograma Dikenga explicado.
Bibliografia e fontes
- THOMPSON, Robert Farris. Flash of the Spirit — sobre o cosmograma kongo e a cruz nas Américas; ver resenha.
- GUNDAKER, Grey. "The Kongo Cosmogram in Historical Archaeology and the Moral Compass of Dave the Potter" — estudo acadêmico sobre a sobrevivência do cosmograma kongo.
- Cemitério dos Pretos Novos (Instituto Pretos Novos / Wikipédia) — dados arqueológicos e históricos sobre o cemitério do Valongo, Rio de Janeiro.
- Dados sobre mortalidade na travessia atlântica: estimativas historiográficas sobre o tráfico transatlântico de escravizados.
- FU-KIAU, Kimbwandènde Kia Bunseki. African Cosmology of the Bântu-Kôngo / O Livro Africano Sem Título (Cobogó, 2024) — sobre o conceito de Kalunga.
Nota metodológica: este artigo distingue explicitamente fato histórico documentado (a travessia atlântica e suas mortes, o Cemitério dos Pretos Novos, a formação dos quilombos em áreas de mata, a tese acadêmica de Thompson sobre o cosmograma kongo) de leitura teológica e interpretativa (a correspondência específica entre cada Reino e cada fato histórico), que é apresentada como interpretação — proposta por Igor Andrade e desenvolvida neste artigo — e não como registro de arquivo com essa correspondência exata. O uso da expressão "terras tupiniquins" segue o sentido poético-popular consolidado (Brasil), sem afirmar fusão específica com o povo indígena Tupiniquim histórico.
Veja também: como surgiram os Reinos de Exu e Pombagira, firmeza, assentamento e n'kisi e o cosmograma Dikenga explicado.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral