Como surgiram os Reinos de Exu e Pombagira? História e formação das tradições afro-brasileiras
Dos povos bantu e iorubás aos Reinos de Exu e Pombagira — um panorama histórico de como a diáspora africana, o Brasil colonial e as tradições afro-brasileiras deram origem à organização dos Reinos, com base em Bastide, Ortiz, Parés, Thornton, Thompson e Gilroy.
O que são os "Reinos" na tradição afro-brasileira
Dentro de várias tradições afro-brasileiras que trabalham com Exu e Pombagira, os Reinos são a forma de organizar os domínios de atuação dessas entidades — a Encruzilhada, o Cruzeiro, as Almas, a Lira, a Mata, a Kalunga, entre outros. Cada Reino é entendido como um "território" espiritual, com suas forças regentes e sua função dentro do trabalho.
Antes de mergulhar na história, uma distinção que vai atravessar todo este artigo: existe a história documentada (o que arquivos, registros e pesquisa acadêmica confirmam sobre povos, diáspora e formação das religiões) e existe a tradição religiosa (o fundamento transmitido oralmente dentro de cada linhagem). As duas se complementam, mas não são a mesma coisa — e este texto sinaliza sempre em qual terreno está pisando.
A África antes da diáspora
Os povos bantu
Como já detalhamos em a influência bantu na cultura brasileira, "bantu" designa um grande conjunto de povos e línguas da África Central e Austral. Sua cosmologia — documentada em obras como Religion and Society in Central Africa, de Wyatt MacGaffey — organiza a existência em domínios: Ntoto (a terra dos vivos) e Mpemba (a terra dos mortos), separadas pela fronteira cósmica da Kalunga, frequentemente associada ao mar (veja mitologia bantu).
Guarde esse nome: Kalunga. Ele vai reaparecer no fim desta história, do outro lado do Atlântico, como nome de Reino.
Os povos iorubás
Os iorubás, da África Ocidental (região da atual Nigéria e Benim), trouxeram outra cosmologia: o culto aos Orixás, os sistemas divinatórios do Ifá e dos búzios (erindinlogun), e a figura central de Exu como mensageiro e senhor da comunicação — bem antes de qualquer demonização colonial, como já mostramos em quem é Exu.
Outros povos
Da África Centro-Ocidental e Ocidental vieram ainda os povos jeje (fon, do antigo Daomé), cujo culto aos voduns — documentado por Luis Nicolau Parés em A Formação do Candomblé — forneceu bases importantes do Candomblé baiano, além de muitos outros grupos cuja contribuição a história registrou de forma mais fragmentada.
A diáspora africana e o Brasil
O historiador John Thornton, em Africa and Africans in the Making of the Atlantic World, 1400–1800, documenta o processo que arrancou milhões de africanos de suas terras — e faz um ponto importante: os africanos não foram apenas vítimas passivas; suas instituições, guerras e estruturas políticas moldaram ativamente o mundo atlântico, e essa agência continuou no Brasil, na forma como os escravizados preservaram e reorganizaram suas tradições.
Um dado histórico central para entender os Reinos: os povos bantu chegaram ao Brasil cerca de um século antes dos iorubás. Esse tempo a mais permitiu que a base bantu se entranhasse profundamente na religiosidade popular brasileira — e é por isso que tanto vocabulário dos Reinos (Kalunga, Makaia) tem raiz bantu, não iorubá.
O sociólogo Paul Gilroy, em O Atlântico Negro, oferece a moldura para entender o que aconteceu depois: a cultura negra da diáspora não é uma cópia diluída de "originais" africanos, mas uma cultura nova, híbrida e viva — nem só africana, nem só brasileira, mas as duas coisas ao mesmo tempo. Os Reinos de Exu e Pombagira são exatamente isso: uma criação afro-brasileira com raízes africanas.
O desenvolvimento das religiões afro-brasileiras
Como detalhamos em como nasceu a religiosidade afro-brasileira, esse caldo histórico gerou tradições distintas:
- O Candomblé, organizado nos terreiros da Bahia e do Rio (Bastide, As Religiões Africanas no Brasil; Parés, A Formação do Candomblé), mais próximo das matrizes africanas.
- A Umbanda, síntese brasileira do início do século XX (Ortiz, A Morte Branca do Feiticeiro Negro), combinando raiz afro-brasileira, catolicismo popular, kardecismo e referências indígenas.
- A Jurema e o Catimbó, tradições do Nordeste com forte componente indígena e de religiosidade popular.
- A Quimbanda e tradições correlatas — como a Makumba Ancestral — com Exu e Pombagira no centro do culto.
Cada uma dessas tradições adaptou o material africano ao contexto brasileiro de um jeito próprio. E é dentro desse processo de adaptação que nasce a organização em Reinos.
A organização em Reinos: onde a história encontra a tradição
Aqui o artigo muda de terreno, e é honesto avisar: a organização em Reinos não tem uma "certidão de nascimento" documentada. Ela se consolidou ao longo do século XX, dentro das tradições que trabalham com Exu e Pombagira, transmitida oralmente e depois registrada em literatura de tradição — não em pesquisa acadêmica de arquivo.
O que se pode afirmar com segurança:
- Não existe um modelo único de Reinos válido para todas as tradições. Cada casa e linhagem organiza os Reinos à sua maneira — algumas trabalham com 7, outras com 9, outras com listas diferentes.
- Os nomes dos Reinos revelam suas raízes: Kalunga é palavra bantu (a fronteira entre vivos e mortos); Makaia tem raiz bantu ligada à mata; Encruzilhada e Cruzeiro dialogam com o papel iorubá de Exu como senhor dos caminhos, cruzado com o simbolismo católico popular do cruzeiro; Almas carrega o eco do culto católico-popular às almas (veja como surgiram as Casas das Almas).
- A lógica de territórios espirituais — cada força atuando num domínio próprio da paisagem (rua, mata, cemitério, mar) — ecoa tanto a cosmologia bantu de domínios (Ntoto/Mpemba/Kalunga) quanto a organização iorubá de Orixás ligados a elementos e lugares. Robert Farris Thompson, em Flash of the Spirit, mostra como essa gramática estética e cosmológica africana se replicou por todas as Américas.
Os principais Reinos
A lista abaixo segue a organização usada na tradição da Makumba Ancestral (a deste projeto) — lembrando que outras casas organizam diferente, e nenhuma lista é "a oficial":
- Trevas — o domínio do que está oculto e fechado; na mesa dos búzios, associado aos caminhos totalmente trancados.
- Encruzilhadas — o domínio clássico de Exu: o cruzamento de caminhos, as escolhas, as direções.
- Almas — o domínio dos mortos e das dívidas espirituais; raiz no culto às almas e no trato com os eguns.
- Cruzeiros — o ponto de encontro e travessia; o cruzeiro como marco entre mundos.
- Makaia (Mata) — o domínio da mata, das folhas e da força bruta da natureza; nome de raiz bantu.
- Lira — o domínio da boemia, da sedução e da rua noturna; território clássico das Pombagiras.
- Kalunga Pequena — o cemitério; a fronteira dos mortos em terra.
- Kalunga Grande — o mar; a grande fronteira, eco direto da Kalunga bantu.
Note a arqueologia contida nesses nomes: num único sistema convivem palavra bantu (Kalunga, Makaia), função iorubá (Exu nas encruzilhadas) e símbolo católico-popular (cruzeiro, almas) — o retrato exato do processo histórico descrito nas seções anteriores.
Como os Reinos são compreendidos atualmente
Hoje, os Reinos seguem vivos e operantes nas tradições que trabalham com Exu e Pombagira — inclusive como base de sistemas oraculares, como o próprio Oráculo de 7 Búzios de Exu, em que cada queda corresponde a um Reino e seu Exu regente.
As diferenças entre tradições permanecem (e não são defeito, são história): uma casa de Quimbanda gaúcha, um terreiro de Umbanda paulista e uma casa de Makumba Ancestral podem listar Reinos diferentes, com regências diferentes. O que há de comum é a lógica profunda — territórios espirituais, cada um com sua força — que remonta às cosmologias africanas de origem.
Conclusão
Os Reinos de Exu e Pombagira são o resultado de uma das sínteses culturais mais notáveis das Américas: cosmologia bantu de domínios e fronteiras + teologia iorubá de Exu como senhor dos caminhos + paisagem simbólica do catolicismo popular brasileiro, tudo reorganizado por gerações de sacerdotes e sacerdotisas dentro do contexto brasileiro. A história documentada explica os materiais; a tradição religiosa explica a construção. E, como diria Gilroy, o resultado não é cópia de coisa nenhuma — é criação própria do Atlântico Negro.
Perguntas Frequentes
Existe uma lista "oficial" de Reinos? Não. Cada tradição e cada casa organiza os Reinos à sua maneira. A lista deste artigo segue a Makumba Ancestral; outras linhagens trabalham com listas diferentes, igualmente legítimas dentro de seus fundamentos.
Os Reinos vieram prontos da África? Não — o que veio da África foram os materiais cosmológicos (Kalunga, o papel de Exu, a lógica de domínios espirituais). A organização em Reinos como a conhecemos é uma construção afro-brasileira, consolidada ao longo do século XX.
"Kalunga" do Reino é a mesma Kalunga da cosmologia bantu? É a mesma raiz: na cosmologia bantu original, Kalunga é a fronteira (associada ao mar) entre o mundo dos vivos e dos mortos. Na tradição afro-brasileira, desdobrou-se em Kalunga Pequena (cemitério) e Kalunga Grande (mar) — a fronteira dos mortos em terra e na água.
Bibliografia
- BASTIDE, Roger. As Religiões Africanas no Brasil. São Paulo: Pioneira/EDUSP, 1971.
- ORTIZ, Renato. A Morte Branca do Feiticeiro Negro: Umbanda e Sociedade Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1991.
- PARÉS, Luis Nicolau. A Formação do Candomblé: História e Ritual da Nação Jeje na Bahia. Campinas: Editora da Unicamp, 2006.
- THORNTON, John K. Africa and Africans in the Making of the Atlantic World, 1400–1800. Cambridge: Cambridge University Press.
- THOMPSON, Robert Farris. Flash of the Spirit: African & Afro-American Art & Philosophy. Nova York: Vintage, 1983.
- GILROY, Paul. O Atlântico Negro: Modernidade e Dupla Consciência. São Paulo/Rio de Janeiro: Editora 34/Universidade Cândido Mendes, 2001.
- MACGAFFEY, Wyatt. Religion and Society in Central Africa: The BaKongo of Lower Zaire. Chicago: University of Chicago Press, 1986.
Nota metodológica: as seções sobre África, diáspora e formação das religiões afro-brasileiras se apoiam na bibliografia acadêmica listada. A organização em Reinos, seus nomes e regências pertencem à tradição oral e ao fundamento de cada linhagem — este artigo apresenta a da Makumba Ancestral sinalizando explicitamente que não existe modelo único.
Veja também: como nasceu a religiosidade afro-brasileira, mitologia bantu e quem é Exu.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral