A Filosofia Bakongo segundo Fu-Kiau (6): Os Quatro Momentos do Sol
Musoni, Kala, Tukula e Luvemba: os quatro momentos do sol na cosmologia Bantu-Kongo representam, ao mesmo tempo, as posições do sol e as fases da vida humana. Entenda esse ciclo segundo Fu-Kiau.
Sobre esta série
Artigo 6 da série A Filosofia Bakongo segundo Fu-Kiau (Série 2 — Cosmologia). Depois de conhecer o cosmograma Dikenga, entramos no seu movimento: os quatro momentos do sol.
O sol como imagem da vida
Na cosmologia Bantu-Kongo, o sol não é apenas um astro: é a grande metáfora da existência. Seu movimento — nascer, subir, cair, desaparecer e voltar a nascer — é o mesmo movimento da vida. Os quatro momentos do sol correspondem, ao mesmo tempo, às posições do sol no céu e às fases da vida de um ser humano (o muntu).
Os quatro momentos
Segundo a cosmologia kongo, os quatro pontos do cosmograma correspondem a quatro tempos, cada um com nome próprio em kikongo:
- Musoni — o tempo da concepção. É o momento em que o muntu é concebido, tanto no mundo espiritual quanto no ventre. É o ponto de origem, muitas vezes associado ao amanhecer que ainda não raiou.
- Kala — o tempo do nascimento no mundo físico. Corresponde ao nascer do sol: o muntu entra na vida visível, o dia começa.
- Tukula — o tempo da maturidade. Corresponde ao sol no auge: é a fase em que o ser humano amadurece, domina os aspectos da vida — da espiritualidade ao propósito e ao caráter — e alcança sua plenitude.
- Luvemba — o tempo da morte física. Corresponde ao poente: o muntu deixa o mundo visível e passa ao mundo espiritual (ku mpemba), juntando-se aos ancestrais (bakulu).
Não é um fim: é uma volta
O ponto decisivo — e mais bonito — é que, nessa visão, o ciclo não termina em Luvemba. Depois do poente, o sol não morre: ele viaja pelo outro mundo e retorna. Da mesma forma, a morte física (Luvemba) não é aniquilação: é passagem. O que era vivo torna-se ancestral, e o movimento recomeça — reconectando-se a Musoni, a concepção. É um círculo, não uma linha reta com fim.
Por isso essa estrutura sustenta ao mesmo tempo o ciclo da vida e da morte e a ideia de tempo circular, que trataremos nos próximos artigos.
Uma nota de rigor
Duas observações de método. Primeiro: há variações nas grafias e até na ordenação desses termos entre diferentes fontes e autores — é natural numa tradição transmitida oralmente e sistematizada por vias diversas. Apresentamos aqui a versão mais recorrente na literatura ligada a Fu-Kiau e à cosmologia kongo. Segundo: como vimos em o cosmograma Dikenga, há debate sobre o quanto essa sistematização é histórica ou moderna. Conhecer o esquema e conhecer suas incertezas é parte de estudá-lo com seriedade.
Conclusão
Musoni, Kala, Tukula e Luvemba — concepção, nascimento, maturidade e morte-passagem — são os quatro momentos do sol na cosmologia Bantu-Kongo: um mapa da vida humana desenhado no céu. E o essencial é que esse mapa é circular: o poente não é o fim, mas a virada para um novo começo. É essa a grande lição do sol kongo.
Bibliografia e fontes
- FU-KIAU, Kimbwandènde Kia Bunseki. African Cosmology of the Bântu-Kôngo / O Livro Africano Sem Título (Cobogó, 2024).
- THOMPSON, R. F.; CORNET, J. The Four Moments of the Sun — ver resenha.
Nota metodológica: apresenta-se a sequência Musoni–Kala–Tukula–Luvemba conforme a literatura mais recorrente ligada à cosmologia kongo, registrando que há variações de grafia e ordenação entre fontes, e que a sistematização é objeto de debate acadêmico.
Veja também: o cosmograma Dikenga, o ciclo da vida e da morte e o tempo circular.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral