Grandes Mestres: Pierre Fatumbi Verger, o fotógrafo que virou babalawo
Primeiro da série Grandes Mestres da Cultura Afro-Brasileira: Pierre Verger (1902–1996), o francês que fotografou o mundo, escolheu a Bahia e foi iniciado como babalawo no Benim, tornando-se ponte viva entre a África e o Brasil.
Série "Grandes Mestres da Cultura Afro-Brasileira"
Esta série apresenta pesquisadores e sacerdotes que dedicaram a vida ao estudo e à preservação das culturas afro-brasileiras. Não são "autoridades" para se citar de cor: são referências reais, com obra verificável, sobre as quais este blog se apoia. Começamos por uma figura singular — alguém que atravessou a fronteira entre observar e pertencer.
Quem foi Pierre Verger
Pierre Édouard Léopold Verger nasceu em Paris, em 4 de novembro de 1902, e morreu em Salvador, em 11 de fevereiro de 1996. Começou como fotógrafo: durante cerca de quinze anos, percorreu quatro continentes registrando povos e culturas. Em 1946, chegou a Salvador — e a Bahia deixou de ser mais um destino para se tornar sua casa até o fim da vida.
O que distingue Verger de tantos viajantes é que ele não parou na fotografia. Foi se tornando etnógrafo, historiador e estudioso do culto aos orixás. Em 1966, a Sorbonne lhe concedeu o título de doutor — notável para quem havia deixado os estudos formais ainda jovem. Em 1974, integrou-se à Universidade Federal da Bahia (UFBA) e colaborou na criação do Museu Afro-Brasileiro.
Do outro lado da fronteira: o babalawo Fatumbi
O ponto mais impressionante da sua trajetória é que Verger não apenas estudou a tradição — ele entrou nela. Iniciado no culto de Ifá no Benim, tornou-se babalawo, sacerdote de Orunmilá, e recebeu o nome de Fátúmbí, que significa, em iorubá, algo como "aquele que renasceu através de Ifá". Passou a ser, ele mesmo, um elo vivo entre a África Ocidental e a Bahia — inclusive levando e trazendo mensagens, plantas e saberes entre os dois lados do Atlântico.
Essa dupla condição — pesquisador e iniciado — faz de Verger uma fonte preciosa e, ao mesmo tempo, exige leitura cuidadosa: seus registros unem o olhar de fora e a vivência de dentro.
Por que ele importa para o fundamento
A obra de Verger é uma das principais pontes documentais entre o culto aos orixás na África e no Brasil. Seus estudos sobre os orixás — reunidos em livros como Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo — e sua monumental pesquisa histórica sobre o tráfico entre o Golfo do Benim e a Bahia (Flux et reflux de la traite des nègres, 1968) ajudaram a demonstrar a continuidade entre as duas margens do oceano. É esse tipo de lastro que sustenta o que discutimos em quem foi Exu antes do Brasil e em a influência iorubá na religião brasileira.
Seus 62 mil negativos e seu acervo são hoje preservados pela Fundação Pierre Verger, em Salvador.
Conclusão
Pierre Fatumbi Verger foi mais que um observador: foi alguém que atravessou o Atlântico tantas vezes que acabou pertencendo às duas margens. Sua obra fotográfica e etnográfica é um dos alicerces sobre os quais o estudo sério das tradições afro-brasileiras se apoia — e um lembrete de que respeito e profundidade, às vezes, nascem de quem soube ouvir antes de falar.
Bibliografia e fontes
- VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo.
- VERGER, Pierre Fatumbi. Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benim e a Bahia (1968).
- Fundação Pierre Verger — acervo e referências biográficas (pierreverger.org).
- Enciclopédia Itaú Cultural, verbete "Pierre Verger".
Nota metodológica: os dados biográficos deste artigo (datas, iniciação, títulos acadêmicos e obras) foram conferidos em fontes públicas (Fundação Pierre Verger, Enciclopédia Itaú Cultural, Wikipédia). Onde a informação não pôde ser confirmada, não foi afirmada.
Veja também: a influência iorubá na religião brasileira, quem foi Exu antes do Brasil e a nossa Biblioteca Comentada.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral