A Filosofia Bakongo segundo Fu-Kiau (1): Quem foi Bunseki Fu-Kiau? Vida, obra e legado
Abertura da série A Filosofia Bakongo segundo Fu-Kiau: quem foi Kimbwandènde Kia Bunseki Fu-Kiau (1934–2013), o pensador congolês reconhecido como a maior autoridade sobre a civilização Bantu-Kongo, e por que sua obra importa para o Brasil.
Sobre esta série
Este é o primeiro artigo da série A Filosofia Bakongo segundo Fu-Kiau. Ela apresenta, com rigor e cuidado, o pensamento de um dos maiores filósofos africanos do século XX — cuja obra permanece pouco explorada em língua portuguesa. Seguimos, em toda a série, um conjunto de regras: priorizar as obras originais de Fu-Kiau; complementar apenas com autores reconhecidos (como Robert Farris Thompson, John Thornton, Óscar Ribas e Kabengele Munanga) quando pertinente; distinguir sempre o que é apresentado por Fu-Kiau do que são interpretações de outros pesquisadores; contextualizar historicamente a tradição Bakongo; e, onde houver debate acadêmico, apresentar as diferentes posições em vez de fingir consenso.
Quem foi Bunseki Fu-Kiau
Kimbwandènde Kia Bunseki Fu-Kiau nasceu em 9 de abril de 1934, na região de Manianga, na então colônia do Congo Belga (atual República Democrática do Congo), e faleceu em 29 de novembro de 2013. É reconhecido como um dos maiores estudiosos das religiões e filosofias africanas e a principal autoridade sobre a civilização Bantu-Kongo — o mundo cultural e espiritual dos povos de língua kikongo da região do antigo Reino do Kongo.
Um traço decisivo de sua biografia: Fu-Kiau não foi apenas um observador acadêmico da tradição. Ele foi iniciado em sociedades de conhecimento kongo — entre elas Lemba, Khimba e Kimpasi —, o que lhe deu acesso a um saber transmitido por dentro, e não apenas descrito de fora. Doutor, pesquisador e educador, dedicou a vida a traduzir esse universo para o mundo, sem traí-lo.
A obra: o pensamento kongo em forma de livro
A obra mais influente de Fu-Kiau é African Cosmology of the Bântu-Kôngo: Tying the Spiritual Knot — Principles of Life & Living ("Cosmologia Africana dos Bantu-Kongo: atando o nó espiritual"). Nela, ele expõe os princípios da cosmologia, da filosofia, da ética e da noção de vida dos Bantu-Kongo: a relação entre o mundo visível e o invisível, o ciclo da vida e da morte, a força vital, a comunidade e os laços com a natureza e o universo.
Há uma notícia especialmente relevante para o público brasileiro: em 2024, essa obra ganhou uma tradução brasileira, publicada como O Livro Africano Sem Título: cosmologia dos Bantu-Kongo (editora Cobogó, tradução de Tiganá Santana). Pela primeira vez, o pensamento de Fu-Kiau chega ao leitor de língua portuguesa numa edição cuidada — o que torna esta série ainda mais oportuna.
Por que ele importa para o Brasil
A relevância de Fu-Kiau para quem estuda a religiosidade afro-brasileira é enorme e pouco reconhecida. A matriz bantu — e o mundo kongo em particular — teve peso imenso na formação do Brasil, como discutimos em a influência bantu na cultura brasileira e em mitologia bantu. Muito do vocabulário, das concepções de pessoa e de ancestralidade e dos símbolos que chegaram ao Brasil vêm dessa raiz.
Fu-Kiau oferece algo raro: a chance de compreender essa raiz na fonte e por dentro, articulada como filosofia — e não como "folclore". Seu trabalho conversa diretamente com o de Robert Farris Thompson, que estudou a arte e os símbolos kongo (inclusive o cosmograma e os "quatro momentos do sol", tema de Four Moments of the Sun), e complementa o registro da tradição angolana feito por Óscar Ribas.
Uma ressalva metodológica desde já
Como faremos em toda a série: é preciso distinguir o que Fu-Kiau apresenta — sua sistematização do pensamento kongo, feita por um iniciado e estudioso — do modo como outros pesquisadores leem essa tradição, e do que é debate acadêmico em aberto. Alguns estudiosos discutem, por exemplo, o grau em que certas sistematizações (como a do cosmograma) refletem um símbolo histórico unificado ou uma reconstrução posterior. Trataremos desses debates quando eles aparecerem, sem transformá-los em certeza nem em polêmica vazia.
Conclusão
Bunseki Fu-Kiau foi, ao mesmo tempo, um iniciado da tradição kongo e um de seus maiores intérpretes para o mundo. Sua obra é uma das portas mais profundas para entender a filosofia bantu — e, por extensão, uma das raízes mais fundas do Brasil africano. Nos próximos artigos desta série, vamos percorrer, com cuidado, o edifício de pensamento que ele nos deixou.
Bibliografia e fontes
- FU-KIAU, Kimbwandènde Kia Bunseki. African Cosmology of the Bântu-Kôngo: Tying the Spiritual Knot — Principles of Life & Living.
- FU-KIAU, Kimbwandènde Kia Bunseki. O Livro Africano Sem Título: cosmologia dos Bantu-Kongo (trad. Tiganá Santana. Rio de Janeiro: Cobogó, 2024).
- Internet Archive e Google Books (registros bibliográficos da obra); estudos sobre a civilização Bantu-Kongo.
Nota metodológica: os dados biográficos (nascimento em 1934 na região de Manianga, morte em 2013, iniciação nas sociedades Lemba/Khimba/Kimpasi, obras) foram conferidos em fontes públicas. A série distingue a exposição de Fu-Kiau das interpretações de outros pesquisadores e dos debates acadêmicos em aberto.
Veja também: Grandes Mestres: Robert Farris Thompson, Grandes Mestres: Óscar Ribas e a influência bantu na cultura brasileira.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral