A Filosofia Bakongo segundo Fu-Kiau (35): A influência Bakongo na Umbanda
Embora os orixás iorubás sejam mais visíveis na Umbanda, sua base mais antiga e profunda é bantu-kongo — nos pretos-velhos, nos caboclos, na ideia de força vital e na centralidade da ancestralidade. Entenda essa herança.
Sobre esta série
Artigo 35 da série A Filosofia Bakongo segundo Fu-Kiau (Série 7 — Diáspora). Depois de tratar da influência bakongo nas tradições de Exu e na Makumba Ancestral, olhamos para outra grande religião brasileira que dela se nutre: a Umbanda.
Uma base mais antiga do que aparenta
A Umbanda não tem uma data única de fundação: sua estrutura ritual foi se consolidando a partir do final do século XIX e início do XX, reunindo elementos de tradições africanas, do catolicismo, do kardecismo e de crenças indígenas — uma síntese genuinamente brasileira. Mas, dentro dessa síntese, é preciso destacar uma raiz que costuma passar despercebida: embora os orixás de origem iorubá sejam mais visíveis publicamente na Umbanda, a base bantu é mais antiga e mais profundamente fundida à cultura brasileira — justamente pela chegada anterior dos povos bantu, como vimos em a influência Bakongo no Brasil.
Entidades centrais da Umbanda de hoje — os pretos-velhos, os caboclos, os exus — já estavam presentes em formas de religiosidade afro-brasileira anteriores a 1908, notadamente a Macumba carioca histórica e a Cabula, ambas de fundamento fortemente bantu.
Onde a matriz bakongo aparece
Vários elementos que estudamos nesta série encontram expressão clara na Umbanda:
- Os pretos-velhos: a comunicação com os ancestrais, tema central desta série (ver o papel dos mortos e memória ancestral e identidade), encontra na figura do preto-velho uma das expressões mais diretas e comoventes da reverência bantu aos que vieram antes — os mais velhos que, tendo atravessado o Kalunga, seguem orientando e curando.
- Os caboclos: a integração entre espiritualidade e natureza (ver a relação entre natureza e espiritualidade) ressoa na figura do caboclo, ligado à força da mata, das águas e da terra.
- Ervas, defumação e purificação: o uso de ervas, fumo e outros elementos para proteção e limpeza espiritual dialoga com a lógica bantu-kongo de restaurar o equilíbrio da força vital (ver o conceito de cura).
- A ideia de força e equilíbrio: a própria noção de "descarrego" e de manutenção do equilíbrio espiritual ecoa a circulação da energia central à cosmologia bantu.
Uma síntese, não uma cópia
É essencial não simplificar: a Umbanda é uma síntese brasileira original, que combina a matriz bantu com elementos iorubás, católicos, kardecistas e indígenas — cada um contribuindo à sua maneira. Reconhecer a profundidade da contribuição bantu não é negar as demais influências; é corrigir um desequilíbrio de reconhecimento público, no qual o elemento iorubá costuma receber mais atenção do que a base bantu que sustenta boa parte da estrutura umbandista.
Conclusão
A Umbanda, embora vista publicamente através de seus orixás de origem iorubá, tem na matriz bantu-kongo uma de suas raízes mais antigas e estruturantes — nos pretos-velhos, nos caboclos, no uso de ervas e na própria lógica de equilíbrio espiritual. É uma herança que merece mais reconhecimento do que costuma receber. No próximo artigo, vemos a influência bakongo em uma tradição que a preserva de forma ainda mais direta: o Candomblé de Angola.
Bibliografia e fontes
- FU-KIAU, Kimbwandènde Kia Bunseki. African Cosmology of the Bântu-Kôngo / O Livro Africano Sem Título (Cobogó, 2024).
- Sobre a formação histórica da Umbanda e sua base bantu: estudos sobre a Macumba carioca histórica e a Cabula como formas anteriores de religiosidade afro-brasileira.
Nota metodológica: apresenta-se a Umbanda como síntese brasileira original de múltiplas influências (bantu, iorubá, católica, kardecista, indígena), destacando a contribuição bantu-kongo sem negar ou substituir as demais.
Veja também: a influência Bakongo nas tradições de Exu e na Makumba Ancestral, a influência Bakongo no Candomblé Angola e influência bantu na cultura brasileira.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral