A Filosofia Bakongo segundo Fu-Kiau (33): A influência Bakongo no Brasil
Antes dos iorubás, os povos bantu-kongo já chegavam ao Brasil escravizado. Abertura da Série 7 (Diáspora): como a filosofia Bakongo atravessou o Atlântico e se tornou uma das grandes raízes — e das menos reconhecidas — do Brasil.
Sobre esta série
Abertura da Série 7 — Diáspora de A Filosofia Bakongo segundo Fu-Kiau. Depois de percorrer a cosmologia, a ancestralidade, a energia, a filosofia e a espiritualidade bakongo em suas próprias bases africanas, chegamos ao encontro dessa tradição com o Brasil.
Uma raiz mais antiga do que se costuma lembrar
Há um dado histórico decisivo, e pouco lembrado: os povos de matriz bantu — entre eles os do Reino do Kongo e regiões vizinhas — chegaram ao Brasil escravizado antes dos povos iorubás. Enquanto a chegada iorubá se concentra sobretudo a partir do século XVIII, a presença bantu remonta ao século XVI. Esse maior tempo de presença permitiu que elementos bantu se fundissem mais profundamente com a cultura local, formando uma base cultural e espiritual sobre a qual, mais tarde, outras tradições também se assentaram.
Ou seja: quando se fala em "raiz africana do Brasil", a matriz bakongo/bantu é, historicamente, a mais antiga e uma das mais estruturantes — mesmo sendo, muitas vezes, menos falada que a iorubá. Já discutimos esse desequilíbrio de reconhecimento em a influência bantu na cultura brasileira; nesta série, aprofundamos como isso se deu, elemento por elemento.
O que atravessou o Atlântico
Vários elementos da cosmologia que percorremos nesta série encontram eco direto no Brasil:
- O vocabulário: palavras como nkisi (que gerou "inquice" e "calundu", entre outras) atravessaram a língua portuguesa falada no Brasil.
- A noção de força vital e de pessoa em relação (o conceito de muntu), que estrutura a forma como tradições brasileiras entendem o ser humano e sua ligação com a comunidade e os ancestrais.
- A centralidade dos ancestrais (o papel dos mortos) — presente com força nas figuras de pretos e pretas velhas e na reverência aos que vieram antes.
- O cosmograma e seus símbolos (o Dikenga), cuja influência aparece, transformada, em elementos gráficos e rituais de tradições afro-brasileiras — tema estudado por Robert Farris Thompson.
Recriação, não cópia
O princípio metodológico que sustentou toda esta série vale, aqui, com força redobrada: o que chegou ao Brasil não foi uma cópia da cosmologia bantu-kongo — foi matéria-prima para recriações profundamente originais, forjadas na experiência específica da escravidão, da resistência e do encontro com outras tradições (indígenas, iorubás, católicas). Como vimos com John Thornton, os africanos chegaram como agentes, não como "página em branco" — e o que fizeram aqui foi criação, não repetição.
Nos próximos artigos desta série, vamos detalhar essa influência em três frentes: nas tradições ligadas a Exu (incluindo a construção da Makumba Ancestral), na Umbanda e no Candomblé Angola.
Conclusão
A presença bakongo no Brasil é anterior, profunda e menos reconhecida do que deveria ser. Ela chegou como língua, como cosmologia, como noção de pessoa e de ancestralidade — e, no encontro com a experiência brasileira, gerou recriações originais que estudaremos nos próximos artigos. Reconhecer essa raiz é um ato de justiça histórica.
Bibliografia e fontes
- FU-KIAU, Kimbwandènde Kia Bunseki. African Cosmology of the Bântu-Kôngo / O Livro Africano Sem Título (Cobogó, 2024).
- THORNTON, John. Africa and Africans in the Making of the Atlantic World — ver resenha.
- Sobre a raiz bantu no Brasil: a influência bantu na cultura brasileira.
Nota metodológica: este artigo trata a presença bakongo no Brasil como raiz histórica que gerou recriações originais na diáspora, não como transposição direta ou cópia da cosmologia africana.
Veja também: a influência bantu na cultura brasileira, a influência Bakongo nas tradições de Exu e na Makumba Ancestral e Grandes Mestres: John Thornton.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral