Como diferentes povos africanos realizavam consultas espirituais?
Iorubás e bantu desenvolveram sistemas divinatórios próprios e distintos — do Ifá e dos búzios ao Ngombo. Entenda essa diversidade de tradições oraculares africanas.
A África não tem "um" sistema divinatório
Um erro comum é tratar "a adivinhação africana" como um sistema único. Na realidade, diferentes povos africanos desenvolveram sistemas oraculares próprios e distintos, cada um com sua cosmologia, instrumentos e lógica de interpretação.
Os sistemas iorubás: Ifá e búzios
Como já detalhamos em a história dos búzios na África Ocidental, os iorubás desenvolveram o sistema de Ifá (praticado pelo opelé ou opon, tradicionalmente por homens) e o erindinlogun (jogo de búzios, tradicionalmente praticado por mulheres). Ambos compartilham a base cosmológica dos Odu.
O Ngombo: a adivinhação dos povos bantu
Os povos bantu da África Central — etnias como Cokwe, Lwena, Lunda, Ndembu, entre outras — desenvolveram seu próprio sistema divinatório, chamado Ngombo. A palavra designa tanto o cesto usado na adivinhação quanto o espírito ancestral que preside o ato divinatório.
Existem variações documentadas do Ngombo:
- Ngombo ia Kakuka — respostas produzidas por uma estatueta de madeira entalhada com símbolos (as maamba, representações de ancestrais tribais), considerada uma das formas mais antigas.
- Ngombo ia Mbingá — um pequeno pêndulo feito de chifre de búfalo, usado sobre um painel riscado na areia ou em madeira.
- Ngombo ia Sisuka — realizado num cesto chamado kasana, contendo diversos símbolos: ossos, patas de animais, figuras de madeira (maamba) e até búzios.
O papel dos ancestrais em ambas as tradições
Uma diferença de ênfase interessante: enquanto os sistemas iorubás (Ifá, búzios) têm forte relação com os Orixás e o conceito de Odu (destino), o Ngombo bantu está mais diretamente ligado ao espírito dos ancestrais, que "ajuda o adivinho a adivinhar" — refletindo a centralidade do culto ancestral na cosmologia bantu (veja a origem do culto aos ancestrais).
Por que isso importa para entender as religiões afro-brasileiras
Como o Brasil recebeu tanto povos bantu quanto iorubás (em momentos históricos diferentes — veja a influência bantu e a influência iorubá), as tradições oraculares afro-brasileiras carregam ecos dessas diferentes origens africanas, ainda que reorganizadas dentro do contexto brasileiro.
Perguntas Frequentes
O jogo de búzios usado no Brasil vem só dos iorubás? A base do erindinlogun (búzios) é de origem iorubá, mas a prática se desenvolveu e se reorganizou dentro do contexto brasileiro, com influências e variações regionais.
O Ngombo é praticado no Brasil? Não é um sistema comumente encontrado de forma direta no Brasil — a influência bantu no Brasil se manifestou mais fortemente na formação da Umbanda e dos candomblés de nação angola do que na prática direta do Ngombo.
Existe um sistema divinatório "mais correto" entre esses? Não — são tradições distintas, cada uma legítima dentro de sua própria cosmologia de origem, sem hierarquia de "correção" entre elas.
Bibliografia
- Registros etnográficos sobre o Ngombo entre os povos bantu da África Central.
Veja também: diferenças entre os principais sistemas oraculares afro-brasileiros.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral