Grandes Mestres: Muniz Sodré, o pensador do terreiro e da cidade
Série Grandes Mestres da Cultura Afro-Brasileira: Muniz Sodré, intelectual baiano, Obá de Xangô e um dos maiores teóricos brasileiros da comunicação e da cultura, autor de O Terreiro e a Cidade e Pensar Nagô.
Série "Grandes Mestres da Cultura Afro-Brasileira"
Nesta série, chegamos a um pensador que reúne duas condições raramente encontradas na mesma pessoa: a de intelectual de primeira grandeza e a de figura inserida na tradição do Candomblé.
Quem é Muniz Sodré
Muniz Sodré de Araújo Cabral é intelectual baiano, um dos mais importantes teóricos brasileiros da comunicação e da cultura, ligado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da UFRJ. É considerado um pioneiro dos estudos de comunicação no país, com dezenas de livros publicados no Brasil e no exterior. Desde 2019, ocupa uma cadeira na Academia de Letras da Bahia.
Mas Muniz Sodré não é apenas um observador externo: ele é Obá de Xangô no terreiro do Axé Opô Afonjá, em Salvador — um cargo de honra dentro da tradição. Essa dupla pertença dá ao seu pensamento uma autoridade singular quando o tema é a cultura negra brasileira.
Uma obra que pensa o Brasil a partir do terreiro
Entre seus mais de quarenta livros, dois são especialmente caros a quem estuda as tradições afro-brasileiras:
- O Terreiro e a Cidade: a forma social negro-brasileira (1988), em que Sodré pensa o terreiro não como um resquício do passado, mas como uma forma social própria, com sua lógica, seu espaço e sua maneira de organizar a vida — uma contribuição original ao pensamento sobre o Brasil.
- Pensar Nagô (2017), em que propõe levar a sério a filosofia e o modo de pensar de matriz nagô como forma legítima de conhecimento, e não como mero "objeto" a ser estudado de fora.
Obras como A Verdade Seduzida e O Monopólio da Fala completam um pensamento que sempre cruzou comunicação, cultura e a experiência negra.
Por que ele importa para o fundamento
Muniz Sodré importa porque desloca o lugar da tradição: em vez de tratá-la como objeto passivo de estudo, reconhece nela uma forma de pensar e de organizar o mundo. Isso dá dignidade filosófica ao que este blog defende em por que estudar história fortalece a espiritualidade e conversa com a ideia de que a identidade se ancora na ancestralidade, tema de ancestralidade e identidade.
Ele é, ao mesmo tempo, fonte acadêmica (interpretação e teoria) e voz de dentro da tradição — e ele próprio faria questão de não confundir os dois planos.
Conclusão
Muniz Sodré mostra que o terreiro não é só um lugar de fé: é um lugar de pensamento. Ao pensar o Brasil a partir da experiência negra e da tradição nagô, ele deu a essas tradições um estatuto filosófico que o preconceito sempre tentou negar. É um dos grandes intelectuais brasileiros — e um Obá de Xangô.
Bibliografia e fontes
- SODRÉ, Muniz. O Terreiro e a Cidade: a forma social negro-brasileira (1988).
- SODRÉ, Muniz. Pensar Nagô (2017).
- SODRÉ, Muniz. A Verdade Seduzida e O Monopólio da Fala, entre outros.
- Portal Literafro (UFMG); Academia de Letras da Bahia.
Nota metodológica: os dados (atuação na UFRJ, cargo de Obá no Axé Opô Afonjá, obras, cadeira na Academia de Letras da Bahia) foram conferidos em fontes públicas. A obra de Sodré é teoria e interpretação, distinta de tradição oral — ainda que escrita por alguém inserido na tradição.
Veja também: ancestralidade e identidade, por que estudar história fortalece a espiritualidade e a Biblioteca Comentada.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral