Grandes Mestres: Juana Elbein dos Santos e a profundidade do mundo nàgô
Série Grandes Mestres da Cultura Afro-Brasileira: Juana Elbein dos Santos, pesquisadora e autora de Os Nàgô e a Morte, obra fundamental sobre a cosmologia da ancestralidade e o culto aos eguns na Bahia.
Série "Grandes Mestres da Cultura Afro-Brasileira"
Nesta série sobre as referências que sustentam o estudo sério das tradições afro-brasileiras, chegamos a uma pesquisadora cuja obra é, ao mesmo tempo, acadêmica e profundamente enraizada na vivência de uma casa de tradição.
Quem foi Juana Elbein dos Santos
Juana Elbein dos Santos foi pesquisadora e etnóloga, coordenadora-geral da SECNEB (Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil). Sua vida uniu pesquisa e pertencimento: foi, por meio século, esposa do Mestre Didi (Deoscóredes Maximiliano dos Santos) — ele próprio alá́gba (sacerdote do culto aos ancestrais) e artista reconhecido —, com quem colaborou em inúmeras pesquisas e projetos sobre a cultura de matriz africana na Bahia.
Essa dupla condição — de estudiosa e de mulher inserida na tradição — dá à sua obra uma densidade rara.
Os Nàgô e a Morte: uma obra fundamental
Seu livro mais influente, Os Nàgô e a Morte: Pàdè, Àsèsè e o culto Égun na Bahia, foi originalmente uma tese de doutorado em etnologia defendida na Sorbonne (1972), depois traduzida e publicada no Brasil. Apresentamos a obra na resenha comentada.
É um estudo profundo sobre a cosmologia nàgô — a concepção de mundo, de pessoa, de morte e de ancestralidade dentro dessa tradição. A obra é referência central para compreender o culto aos eguns (os ancestrais) e a estrutura simbólica que organiza a relação entre vivos e mortos na Bahia — temas que tocamos em ancestralidade e identidade e em origem do culto aos ancestrais.
Por que ela importa para o fundamento
Os Nàgô e a Morte é uma das obras que mais aprofundaram a compreensão da ancestralidade como estrutura de sentido — não como superstição sobre "os mortos", mas como um sistema cosmológico sofisticado. Para quem estuda o lugar dos ancestrais na tradição afro-brasileira, é leitura incontornável.
Como sempre nesta série, uma nota de honestidade: trata-se de interpretação etnográfica de altíssimo nível, feita por alguém próximo da tradição — o que a torna valiosa e, ao mesmo tempo, situada numa linhagem e num olhar específicos, não uma "verdade única" sobre todas as casas.
Conclusão
Juana Elbein dos Santos deixou uma obra que uniu o rigor da etnologia à profundidade de quem viveu a tradição por dentro. Os Nàgô e a Morte segue sendo uma das chaves mais importantes para entender a cosmologia da ancestralidade nàgô — e um exemplo de como pesquisa e pertencimento podem se encontrar sem se anular.
Bibliografia e fontes
- SANTOS, Juana Elbein dos. Os Nàgô e a Morte: Pàdè, Àsèsè e o culto Égun na Bahia (tese, Sorbonne, 1972) — ver resenha comentada.
- SECNEB — Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil.
Nota metodológica: os dados biográficos (SECNEB, ligação com Mestre Didi, tese na Sorbonne em 1972) foram conferidos em fontes públicas. Datas de nascimento e morte não foram afirmadas por não terem sido confirmadas nas fontes consultadas. A obra é interpretação etnográfica situada, distinta de fato histórico e de tradição oral universal.
Veja também: resenha de Os Nàgô e a Morte, ancestralidade e identidade e a Biblioteca Comentada.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral