A Filosofia Bakongo segundo Fu-Kiau (38): Diferenças entre cosmologia Bakongo e iorubá
Bakongo e iorubá não são a mesma cosmologia com nomes trocados: entenda semelhanças de fundo e diferenças estruturais entre os dois sistemas.
Sobre esta série
Depois de percorrer sete séries sobre a obra de Kimbwandènde Kia Bunseki Fu-Kiau — da cosmologia bakongo à sua presença na diáspora — abrimos aqui a Série 8, dedicada a comparações cuidadosas entre a filosofia bakongo e outras tradições. Começamos pela pergunta mais comum de quem chega ao Oráculo de 7 Búzios: qual é a diferença entre a cosmologia bakongo e a cosmologia iorubá? O artigo anterior desta jornada, Legado de Fu-Kiau nas religiões afro-brasileiras, fechou a Série 7 mostrando como diferentes matrizes africanas chegaram ao Brasil. Este artigo dá um passo atrás e compara as próprias origens africanas.
Duas civilizações, duas línguas, duas histórias
Bakongo e iorubá (yorùbá) são povos distintos, com línguas distintas (kikongo e yorùbá pertencem a famílias linguísticas diferentes dentro do grande tronco Níger-Congo), territórios históricos distintos — a região do antigo Reino do Kongo, hoje partilhada entre Angola, República Democrática do Congo, República do Congo e Gabão, no caso bakongo; a região sudoeste da atual Nigéria e partes do Benin, no caso iorubá — e trajetórias históricas distintas até a diáspora atlântica. Tratar as duas cosmologias como "a mesma coisa com nomes diferentes" apaga essa história real. É um erro comum, inclusive dentro de terreiros e casas de tradição afro-brasileira, e vale corrigi-lo com cuidado.
A cosmologia bakongo segundo Fu-Kiau
Em African Cosmology of the Bântu-Kôngo, Fu-Kiau descreve um universo dividido em dois mundos — ku nseke (o mundo visível, dos vivos) e ku mpemba (o mundo invisível, dos ancestrais e espíritos) — separados pelo Kalunga, fronteira que já discutimos em O conceito de Kalunga. O tempo, nessa cosmologia, não é uma linha, mas um círculo: a existência passa por quatro momentos representados no cosmograma Dikenga — Musoni, Kala, Tukula e Luvemba — que já detalhamos em O cosmograma Dikenga.
A cosmologia iorubá
A cosmologia iorubá, tal como registrada por estudiosos como Reginaldo Prandi, organiza-se em torno de Olodumare (o princípio supremo, distante do cotidiano), dos orixás (forças da natureza e ancestrais divinizados, cada um com domínio e personalidade próprios) e do sistema adivinhatório de Ifá. Èṣù ocupa um papel de mediador entre os planos — tema que já tratamos em Quem foi Exu antes do Brasil e na resenha de Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi.
Onde as duas se aproximam
Apesar da distância geográfica e linguística, há convergências de fundo que ajudam a entender por que ambas as tradições encontraram ressonância na diáspora:
- Plano visível e plano invisível. Tanto a cosmologia bakongo (ku nseke/ku mpemba) quanto a iorubá (orum/aiê, nos termos que a tradição posteriormente consolidada emprega) reconhecem um mundo material e um mundo espiritual em relação contínua.
- Ancestralidade como eixo central. Em ambas, os mortos não desaparecem: continuam agindo sobre os vivos, exigindo cuidado ritual e reciprocidade.
- Força vital em circulação. A ideia de uma energia ou força que atravessa pessoas, objetos e a natureza aparece nas duas cosmologias, ainda que com vocabulários e mecânicas cosmológicas próprias.
Onde as duas divergem
- Estrutura cosmológica distinta. O cosmograma Dikenga, com seus quatro momentos e movimento circular do sol, é uma elaboração bakongo específica; não há um equivalente direto e estrutural no sistema de Ifá, que se organiza de outra forma, em torno dos odus (signos divinatórios) e do corpo de orixás.
- O Kalunga é um conceito bakongo. A fronteira aquática entre os dois mundos, tal como Fu-Kiau a descreve, é uma imagem cosmológica própria da região do Kongo, ligada à experiência histórica e geográfica desse povo (inclusive à travessia atlântica). Não deve ser confundida com outras "fronteiras entre mundos" de tradições vizinhas, mesmo quando cumprem função comparável.
- Panteão versus dualidade de mundos. A cosmologia iorubá é organizada, em grande medida, em torno de uma pluralidade de orixás com atributos e domínios próprios; a cosmologia bakongo, na exposição de Fu-Kiau, enfatiza menos um panteão extenso e mais a estrutura dual dos mundos e o ciclo temporal do Dikenga.
Por que essa distinção importa
Confundir as duas tradições não é um erro inofensivo. Ele apaga a identidade histórica de povos africanos específicos e alimenta a ideia equivocada de que "a África" tem uma única cosmologia — quando, na realidade, o continente abriga centenas de sistemas de pensamento distintos, cada um com sua própria lógica interna. Fu-Kiau insistia justamente no oposto: que a cosmologia bakongo merece ser estudada em seus próprios termos, com seu próprio vocabulário, antes de qualquer comparação.
Conclusão
Bakongo e iorubá compartilham preocupações filosóficas de fundo — a relação entre visível e invisível, o peso da ancestralidade, a ideia de força vital — mas são sistemas cosmológicos distintos, com histórias, línguas e estruturas próprias. Reconhecer isso é condição para qualquer comparação séria, e é isso que orienta os próximos artigos desta série.
Bibliografia e fontes
- FU-KIAU, K. K. B. African Cosmology of the Bântu-Kôngo: Tying the Spiritual Knot.
- FU-KIAU, K. K. B. O Livro Africano Sem Título: cosmologia dos Bantu-Kongo. Trad. Tiganá Santana. Cobogó, 2024.
- PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás.
- THOMPSON, Robert Farris. Flash of the Spirit.
Nota metodológica: este artigo compara duas tradições distintas com base em fontes já verificadas e citadas nesta série (Fu-Kiau e Prandi), evitando afirmar equivalências não sustentadas pelas fontes originais. Onde a comparação poderia sugerir que as tradições são intercambiáveis, o texto reforça explicitamente que não são.
Veja também:
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral