Filipe Vidal (9): cosmovisão africana e a 'grande travessia' dos saberes
Filipe Vidal fala em uma 'grande travessia' de saberes: o convite a valorizar a herança cultural africana e lutar pelo reconhecimento de uma cosmovisão própria, distinta da lente ocidental.
Série sobre Filipe Vidal
Nono artigo da série sobre o historiador angolano Filipe Vidal (veja a abertura da série para contexto e ressalvas).
O que é "cosmovisão", nesse debate
"Cosmovisão" (do alemão Weltanschauung, mas aplicado aqui em sentido antropológico) é o conjunto de pressupostos com que uma cultura interpreta o mundo: o que é tempo, o que é pessoa, o que é natureza, o que conecta vivos e mortos. A reivindicação central de Vidal — e de um campo mais amplo de pensadores africanos e afrodiaspóricos — é que a cosmovisão africana é um sistema coerente e completo, não uma versão "menos desenvolvida" da cosmovisão ocidental.
A imagem da "grande travessia"
Vidal descreve seu convite como uma espécie de grande travessia: atravessar de volta — simbolicamente — para reencontrar um patrimônio cultural que a colonização tentou apagar ou subordinar, e lutar pelo reconhecimento dessa cosmovisão como igualmente válida no debate público e educacional. A imagem da travessia não é neutra: ecoa, de forma proposital ou não, a travessia atlântica que levou populações africanas escravizadas às Américas — só que aqui invertida, como movimento de retorno e reafirmação, não de dispersão forçada.
Onde esse tema já apareceu neste blog
Esta não é uma discussão nova por aqui. Já tratamos da diferença entre cosmologia e mitologia em diferença entre cosmologia e mitologia, da cosmovisão bakongo especificamente através de Fu-Kiau em o que é cosmologia bakongo, e da forma como diferentes sistemas oraculares afro-brasileiros — incluindo o Oráculo de 7 Búzios — carregam, cada um, uma cosmovisão própria por trás da técnica.
O ponto em comum com o projeto deste site
O próprio lema deste site — "o oráculo revela, o sacerdote interpreta, a engenharia explica" — é uma aposta de que é possível tratar uma cosmovisão de matriz africana com o mesmo rigor intelectual dedicado a qualquer outro sistema de pensamento, sem reduzi-la a superstição nem inflá-la em exotismo. É exatamente o que Vidal reivindica, em escala nacional, para a cosmovisão angolana.
Conclusão
A "grande travessia" de Vidal é, no fundo, um pedido de lugar à mesa: que a cosmovisão africana seja tratada como sistema de pensamento, e não como curiosidade cultural. No décimo e último artigo desta série, tratamos do lado mais controverso e menos consensual do seu trabalho: yoga kemético, astrologia e parapsicologia.
Fontes
- Africas.com.br — perfil de Filipe Vidal, menção à "grande travessia" de saberes e à luta pelo reconhecimento da cosmovisão africana.
Nota metodológica: a expressão "grande travessia" chega até nós via resumo de fonte secundária — tratamos aqui do sentido geral da ideia, não de citação literal verificada.
Veja também: Filipe Vidal: filosofia da ancestralidade, o que é cosmologia bakongo e diferenças entre sistemas oraculares afro-brasileiros.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral