Filipe Vidal (7): o alerta sobre a aculturação da juventude angolana
Filipe Vidal alerta que um processo de aculturação tem distraído a juventude angolana de sua própria história e cosmovisão. O que isso significa, e por que o tema também fala ao Brasil.
Série sobre Filipe Vidal
Sétimo artigo da série sobre o historiador angolano Filipe Vidal (veja a abertura da série para contexto e ressalvas).
O alerta
Em entrevista coberta pelo veículo angolano Correio da Kianda, Vidal — identificado ali como historiador — afirma que um processo de aculturação tem distraído a juventude angolana de sua própria história e identidade cultural. A preocupação não é com influência estrangeira em si (todo país absorve influências externas), mas com ausência de mediação crítica: jovens que consomem referências culturais externas sem nunca terem sido apresentados, de forma consistente, às próprias.
Por que "distração" é a palavra certa
O termo escolhido é revelador. Não se trata de acusar a juventude de "traição" cultural, mas de apontar um problema estrutural: se a escola, a mídia e o entretenimento disponíveis não oferecem acesso real à história e à cosmovisão angolanas — os mesmos reinos, línguas e filosofias tratados nos artigos anteriores desta série —, a ausência de referência própria é preenchida inteiramente por referência alheia. O jovem não escolhe entre "sua cultura" e "cultura externa" em igualdade de condições; ele escolhe entre o que está disponível e o que não está.
Isso não é exclusividade angolana
O mesmo fenômeno — geração desconectada da própria matriz cultural por falta de acesso, não por rejeição deliberada — aparece com força no debate brasileiro sobre religiões de matriz africana, e é parte do que motiva blogs e conteúdo educativo como este: oferecer, em linguagem acessível, o que normalmente não chega à sala de aula. Tratamos questão semelhante em ancestralidade e identidade e em por que estudar história fortalece a espiritualidade: sem acesso à própria história, a espiritualidade de matriz africana vira algo a ser redescoberto tardiamente, muitas vezes já adulto — quando poderia ter sido parte natural da formação desde cedo.
O que Vidal propõe como resposta
Consistente com os outros temas da série, a resposta de Vidal não é isolamento cultural, mas educação e transmissão ativa: levar história, filosofia e cosmovisão africanas para onde a juventude já está — incluindo os canais de vídeo e mídias digitais que ele próprio usa para divulgar essas ideias.
Conclusão
O alerta de Vidal sobre a aculturação da juventude é, no fundo, uma versão contemporânea do mesmo argumento que atravessa toda a série: cultura só protege quem tem acesso a ela. No próximo artigo, tratamos de um conceito mais amplo que aparece em sua obra: a cosmovisão africana e a ideia de uma "grande travessia" de saberes.
Fontes
- Correio da Kianda — "Historiador Filipe Vidal diz que processo de aculturação tem distraído a juventude angolana".
Nota metodológica: o conteúdo específico da entrevista não pôde ser acessado na íntegra neste ambiente (bloqueio de rede); a leitura aqui se baseia no resumo indexado publicamente do conteúdo da matéria.
Veja também: Filipe Vidal: cultura como pátria, ancestralidade e identidade e por que estudar história fortalece a espiritualidade.
Laroyê, Exu · Reverência à tradição da Makumba Ancestral